terça-feira, 20 de outubro de 2015

RESENHA TEMPOS MODERNOS


TEMPOS MODERNOS / MODERN TIMES
Produção: EUA / 1936
Direção: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin / Paulette Goddard
Duração: 83 min.

            Tempos Modernos é o ápice criativo do maior gênio que o cinema conheceu. Todo seu conhecimento, sua técnica, caráter inovador e domínio da arte que o consagrou estão presentes de maneira total e absoluta: a pantomima levada ao extremo, o forte e absoluto reinado do drama social, o apelo ao sentimental e a irreverência e ironia de Chaplin em sua primeira participação sonora transformaram Tempos Modernos em um clássico absoluto às vésperas de completar seu octogésimo aniversário.
          Este filme foi fundamental para a consolidação do cineasta como um anti-herói por parte da conservadora sociedade norte-americana. Enquanto o grande público e a crítica o transformavam em um ícone do cinema, os políticos e os representantes das elites econômicas do país o enxergavam como uma eventual ameaça. Tal fato confirmou-se em 1940 quando do lançamento de outro clássico: O Grande Ditador. Em uma época em que os EUA não desejavam se posicionar em relação à II Grande Guerra, um Hitler ridicularizado por Carlitos não era nem um pouco bem visto. O ditador nazista ainda não era o “inimigo da América” _ não nos esqueçamos de que ao longo da década de 30, o nazismo e seu líder eram bem vistos por setores da sociedade norte-americana: a eugenia e ideia de superioridade racial estavam enraizadas principalmente no sul dos EUA, grandes empresas e corporações eram parceiras comerciais e o governo norte-americano via a princípio com bons olhos um aliado econômico em uma época em que havia a ameaça do stalinismo na Europa (ver notas *).
Assim, após o lançamento do filme no início da guerra Chaplin passou a ser persona non grata ao establishment. Tal fato gerou uma verdadeira perseguição pessoal ao artista, que sofreu acusações e investigações pela HUAC - Comissão para Investigação de Atividades Antiamericanas - e posteriormente pela famosa comissão do senado do republicano Joseph McCarthy, na qual vários norte-americanos acusados de serem comunistas ou simpatizantes de tais ideais tiveram que se explicar perante os senadores, a famosa “caça às bruxas”. Tal situação levou Chaplin a um exílio voluntário na Suíça, no início dos anos 50, que só foi quebrado em 1972 quando a Academia de Hollywood resolveu, de maneira envergonhada, homenageá-lo e premiá-lo com um Oscar honorário.
          Além das questões políticas, Chaplin ousou: criticou de maneira jocosa, irônica e por vezes cínica, o que a sociedade norte-americana defende até hoje como o que tem de mais valioso, que são seus princípios de liberdade, trabalho e ascensão social, o famoso American way of life. Nascido de uma família pobre, filho de atores mambembes do cenário londrino, o artista representava justamente o protótipo dos valores norte-americanos, ou seja, alguém que “veio de baixo” e com seu esforço, competência e habilidade alcançou o topo da escala social. Entretanto, mesmo sendo fruto desta sociedade que o acolheu, ao contrário de tantos que se renderam ao modelo hegemônico e aceitaram imposições sobre seu estilo, Chaplin utiliza a linguagem cinematográfica para criar através do seu personagem denominado de vagabundo a imagem de um herói urbano.
          Em uma sociedade em que o sucesso é ícone de ascensão social, onde supostamente as oportunidades de conquista profissional e financeira são para todos, onde “o céu é o limite” para se obter os bens materiais,  transformar um “vagabundo” em herói, sem dúvida alguma não poderia colocá-lo como uma unanimidade. Para muitos, o simpático Carlitos era uma ameaça.
          A arte cênica ao longo do tempo sempre foi vista como um importante elemento de conscientização e transformação social. Da Antiguidade temos o legado das famosas tragédias gregas. As comédias sempre tiveram um apelo muito grande junto ao público, do teatro às apresentações de ruas, dos circos etc. Chaplin insere neste contexto a nova linguagem do cinema para ocupar este espaço, a das “fotos em movimento”: ao rir das agruras cotidianas do personagem criado por Chaplin, as plateias se identificavam com seu dia a dia, principalmente em uma época de reconstrução do país com a quebra da bolsa de valores em Nova York (1929), onde a crise do capitalismo escancara ainda mais as contradições daquela sociedade criada pelos sonhos de consumo.
          Os traumas de sua infância, com pai alcoólatra, mãe internada em manicômio, abandono e miséria transformaram-no em um artista que, ao invés de renegar seu passado, colocou tais situações como protagonista em suas tramas. Sua arte e seu estilo eram um meio que o levava a depurar seus sentimentos mais íntimos, afastar seus fantasmas e colocar o homem comum_ sempre se metendo em confusões e sem dinheiro, mas cheio de afeto_ como o centro do universo: o humanismo chapliniano. E é justamente disto que estamos tratando quando analisamos Tempos Modernos: não é uma suposta ideologia que deve rotular sua obra. Chaplin critica o patrão, mas também apresenta o operário em algumas situações que estão longe de caracterizá-lo apenas como vítima. Evidentemente que a crítica maior e mais contundente é sobre o capital e por uma razão bem simples, não é a máquina que representa o retrocesso, mas sim o mau uso deste instrumento que transforma pessoas em não pessoas. Como humanista que era, a dissecação do trabalho em uma linha de montagem desumaniza o homem, e é justamente este processo que será duramente criticado pelo artista naquilo que ele tinha de melhor em sua arte: o humor!
          Em Tempos Modernos, logo na apresentação a primeira imagem é a de um relógio com os ponteiros em movimento. Anuncia-se aqui o tempo das fábricas, das indústrias, o predomínio da medida cronológica monitorando as sociedades industriais e pós-industriais, pois ainda é justamente este tempo ao qual nos reportamos e nos submetemos na chamada pós-modernidade atual. Ao contrário de outros momentos históricos em que a religiosidade e a vida agrária eram controladas pelo tempo da Igreja Católica Ocidental através do badalar dos sinos, assim como a presença de relógios sem a existência de ponteiros para os minutos, a partir da Revolução Industrial (final do século XVIII e séc. XIX) o tempo deixa de ser “lento” e passa a seguir o ritmo da linha de montagem. A indústria e sua organização tornam-se um modelo que molda várias instituições, até mesmo as escolas, que passam a ter uma estrutura similar, inclusive com os sinais tais como os de uma fábrica. A linha de montagem estabelece não apenas o ritmo do dinheiro como também o movimento da própria vida. É esta pressa, esta rapidez que leva o trabalhador à completa neurose que irá determinar o sentido de sua própria subsistência. Trata-se de um homem máquina, ou a visão do homem enquanto continuidade desta engrenagem em que o elemento humano perde a sua qualidade de ser e transforma-se em um fim em si mesmo, ou a partir dos estudos de Marx, em um alienado, isto é, “(...) quando o ser humano se afasta de sua natureza, (...) não controla sua atividade essencial, pois os objetos que produz (as mercadorias) passam a adquirir existência independente do seu poder e contrária aos seus interesses. Estado do indivíduo que não mais se pertence, que não detém o controle de si mesmo ou que se vê privado de seus direitos fundamentais, passando a ser considerado uma "coisa". Falta de percepção de si mesmo”. (Iniciação à Filosofia, Marilena Chauí, ed. Ática, 2012, pág. 363).
          Historicamente, ao deixar de ser um artesão que acompanha todas as etapas da produção, o operário da nascente indústria anula sua criatividade, submete-se ao controle completo e absoluto do capital. É este ser fragmentado e sem poder sobre os seus próprios corpo e mente _ satirizado nas cenas em que a linha de montagem é desligada para o almoço e no processo repetitivo que bloqueia qualquer lampejo de criação_ que Chaplin coloca este homem em sua real posição: a de um ser em profundo processo de desumanização.
          A genialidade de Chaplin manifesta-se naquela que talvez seja a cena mais engraçada e, ao mesmo tempo, mais trágica, surreal e assustadora: o momento em que um comerciante tenta vender ao proprietário da indústria uma máquina que iria colocar na boca do operário o alimento. Seu objetivo seria o de reduzir o tempo de almoço e consequentemente agilizar a produção. Ao divulgar seu produto, o comerciante enaltece suas qualidades dizendo: “Veja, o operário não faz nada, a máquina faz tudo”. Estes são os Tempos Modernos...

         O paradoxo em uma sociedade que enaltece a liberdade acima de todo e qualquer valor é o personagem de Chaplin fazer de tudo ao longo do filme para voltar à prisão, onde por ter “sem querer” evitado uma fuga em massa, nosso simpático protagonista passa a ter um tratamento diferenciado e privilegiado. Assim, ao ganhar sua liberdade, o vagabundo faz de tudo para perdê-la, voltar a ser preso é seu objetivo maior. Nestas cenas, vemos então o humor irônico de seu criador em plena forma: de que adianta ser livre em uma sociedade que nos aprisiona?
          Em seus filmes, os personagens que representam o poder e o Estado são constantemente humilhados, os guardas e a polícia em si, suas maiores vítimas. Chutar a bunda de um policial era um exercício metafísico. Nestas cenas o poder coercitivo do Estado e sua autoridade são duramente criticados. Em Tempos Modernos, a viatura policial mais parece um ônibus, um coletivo, pois para com frequência para prender bêbados, desocupados e acima de tudo pobres. Através do riso torna-se muito fácil identificar quem são os “cidadãos”, quem os defende e contra quem. Há uma sequência esplêndida onde o vagabundo e sua amiga estão sentados na calçada de um bonito bairro residencial, então um homem bem vestido sai para trabalhar e sua esposa dona-de-casa despede-se do marido com entusiasmo. O vagabundo imita os gestos exagerados da mulher e imagina como seria maravilhoso viver em uma casa como aquela. O seu sonho encerra-se com a chegada de um guarda prestes a prendê-los por vadiagem. A cena a seguir na loja de departamentos nos apresenta também o contraste entre a sociedade de ostentação, que é para poucos, com a realidade de muitos que, além do preconceito e humilhação, ainda enfrentam a forte repressão policial (como na cena em que Chaplin sem querer balança uma bandeira caída de um caminhão – provavelmente vermelha – e é preso como líder grevista e quando o pai desempregado é morto em uma manifestação).


          Não é apenas o capital que merece críticas; em um momento tão difícil como aquele, a conquista do emprego era uma realização. Assim, quando no final do filme nosso protagonista consegue este feito, no mesmo dia_ para sua decepção e de seu encarregado_ as máquinas novamente são paradas e mais uma vez inicia-se uma greve. Os dois trabalhadores demonstram claramente a insatisfação diante daquele quadro. Aqui, o trabalhador é colocado entre um patrão opressor e um sindicato incapaz de realizar uma leitura adequada do momento.
          Recentemente ouvi no rádio a entrevista de um importante representante do sindicato patronal defendendo a lei de terceirização que foi aprovada na Câmara dos Deputados e segue para o Senado Federal. Infelizmente não me recordo de seu nome, mas entre outras coisas chegou a dizer que era um absurdo o trabalhador ter uma hora para o almoço, que muitos não utilizam este tempo e que poderiam, por exemplo, fazer como nos EUA, onde o operário come um lanche em quinze minutos, podendo assim sair antes do término de sua jornada de trabalho. Ao ouvir tamanho absurdo, foi imediata a relação com a famosa cena de um coitado e atabalhoado Carlitos tendo que comer rapidamente através de uma máquina que colocava o alimento em sua boca.
          Também em pleno 2015, a linha de montagem continua funcionando tal como aquela imortalizada no filme, a repressão policial faz parte dos principais Estados de Direito ditos democráticos no mundo e não apenas das ditaduras denominadas de direita ou esquerda, relógios de ponto, hoje eletrônicos,  baseados na biometria são instalados em instituições de ensino público, como se o trabalho intelectual de um profissional da educação pudesse ser mensurado e quantificado. É possível controlar o tempo de um trabalho criativo como o de um professor? Quando até mesmo sobre um trabalho essencialmente mental se busca o controle e a consequente alienação, devemos nos perguntar se Charles Chaplin era de fato um comediante ou se estava muito além desta denominação quase quarenta anos depois de sua morte.
          Façamos um exercício: se estivesse vivo, se fosse brasileiro e filmasse Tempos Modernos em 2015, evidentemente com algumas atualizações, como Chaplin seria visto por importantes setores de nossa sociedade?
          Será que seria rotulado de comunista? Esquerdista? Ou pior: será que teria que ouvir Vai pra Cuba! ?
          Evitar apontar erros, falhas que existem em todos os sistemas econômicos e políticos existentes levam as pessoas a ter opiniões fechadas. Muitos setores de nossa sociedade pretendem fechar os olhos para situações em que o capital e sua estrutura são incapazes de resolver o que Chaplin apontava com fina ironia oitenta anos atrás. Longe de uma pregação revolucionária ou da substituição de um sistema por outro, Chaplin nos diz com Tempos Modernos que o capitalismo está muito longe de ser o melhor dos mundos e que não querer ver que há diferenças sociais gritantes e absurdas é um erro maior do que aquele cometido pela igreja católica ao condenar Galileu Galilei. Infelizmente ainda sustenta-se em nosso país o discurso da cordialidade do brasileiro e de uma total ausência de conflitos sociais; para estes, denunciar a desigualdade é algo não patriótico e capaz de incitar o ódio e uma luta de classes. É este discurso antiquado, baseado no medo e na ignorância _ mas, ao mesmo tempo oportunista_ de importantes setores sociais respaldado pelos mais importantes veículos de comunicação de massa, que nos afasta de nossos reais problemas. Para estes grupos, Charles Chaplin, o maior gênio da mais importante arte do século XX, o cinema, deve ser visto apenas e tão somente como um comediante e seus filmes, assistidos apenas como entretenimento. Ou seja, rir e não pensar.
          Chaplin não cria em Carlitos uma consciência de classe, mas faz de seu personagem central o protótipo do homem desconcertado diante do mundo que o cerca. Se Euclides da Cunha caracterizou o sertanejo como um forte, Chaplin com seu personagem recria a famosa obra de Dali a persistência da memória de 1931 onde surge uma nova visão de homem: a da resistência e resiliência e, acima de tudo, a coragem e o otimismo diante de tantas incertezas. A emocionante cena final é um convite a tudo isso.


         

NOTAS (*)