domingo, 27 de julho de 2014

O SENHOR DA GUERRA


http://portifoliovirtualsalesiano.blogspot.com.br/2012/02/resenha-o-senhor-da-guerra-1965.html


O SENHOR DA GUERRA / THE WAR LORD
Produção: EUA / 1965
Direção: Franklin Schaffner
Elenco: Charlton Heston / Richard Boone / Maurice Evans / Rosemary Forsyth
Duração: 122 min / Adaptado para o cinema a partir de romance e peça de Leslie Stevens.

          Sinopse: Chrysagon (Heston) é um nobre guerreiro que recebe do duque da Normandia a posse de um território (feudo) que sofre frequentes ataques dos frísios, e onde os camponeses, embora cristianizados, conservam-se fiéis aos antigos cultos celtas. Pouco depois de se fixar em seu feudo, este senhor feudal faz valer seu direito de passar a primeira noite de núpcias com uma camponesa que está prestes a se casar com um dos seus servos. Entretanto, ao se apaixonar pela noiva, Crrysagon recusa-se a devolvê-la ao noivo, o que gera a ira dos camponeses, que se unem aos invasores bárbaros em uma tentativa de tomar o castelo e o feudo.
          Trata-se de uma das melhores adaptações para o cinema do mundo medieval (século XI), que consegue, além de uma trama envolvente e com bastante ação, ser elucidativa das relações sociais, políticas, religiosas e ideológicas da Europa dominada pela religião católica e pelos nobres cavaleiros, mas ao mesmo tempo carregada de conflitos internos.
          
            Nesta resenha considero importante identificar os principais grupos sociais envolvidos:

Normandos: habitantes da Normandia, antiga província do noroeste da França, originalmente o lar das tribos celtas (gauleses), que se estabeleceram na Britânia, Inglaterra, Gales, França e Irlanda. Em 1066 (século em que transcorre a trama), o duque Guilherme da Normandia conquista a Inglaterra tornando-se Guilherme I; são os cristãos do filme;
          
          Frísios: tribo do noroeste da Europa, parte do reino Franco (atual Holanda);no filme, invadem a França pelo mar do Norte; são os chamados bárbaros pagãos pelos cristãos normandos;
         
         Druidas: povos pagãos, antigos sacerdotes bretões e gauleses; não possuíam templos; acreditavam na imortalidade da alma e em seres da natureza, se reuniam nas florestas e bosques. São os servos (camponeses) que sofrem no filme um processo de aculturação cristã, mas que procuram mesmo assim manter suas origens e tradições culturais e religiosas.

Contextualização histórica: a partir do reinado de Guilherme I, desenvolveu-se o processo de feudalização de vários territórios europeus. Este Feudalismo consistia na concessão de terras a nobres (vassalos) que em troca deste beneficio passam a dever obrigações a seus senhores (chamados suseranos). Por sua vez, estes senhores passaram a ter cada vez mais vassalos com um processo contínuo de conquistas de terras, trocas de favores e formação de exércitos. Este processo passou com o tempo a fortalecer o poder dos senhores, que passavam a ter um número cada vez maior de vassalos, processo este que acabou por limitar e enfraquecer o poder centralizado dos reis.
          Ao longo do filme podemos observar, em algumas cenas em que a câmera amplia o seu plano, como era o interior “clássico” de um feudo, com a divisão do trabalho pelos camponeses em suas roças e nas terras do senhor. Também são mostradas as moradias destes trabalhadores que dependiam, na ausência de um governo forte e centralizado, da ajuda e proteção do exército do de seu Senhor. Trata-se de um mundo onde as relações de solidariedade são amplas e muito mais concretas do que as existentes nas atuais sociedades capitalistas. Em seu depoimento no livro Ano 1000 ano 2000, na pista dos nossos medos (Ed. Unesp, 1998), o brilhante historiador Georges Duby assim caracteriza a sociedade feudal na transição do milênio, período de O Senhor da Guerra: “(...) Como as sociedades africanas, as medievais eram sociedades de solidariedade. O homem estava inserido em grupos: o grupo familiar, o da aldeia, o senhorio, que era um organismo de exação, mas também de segurança social. Quando sobrevinha um período de fome, o senhor abria seus celeiros para alimentar os pobres. Esse era seu dever e ele estava convencido disso. Esses mecanismos de ajuda mútua evitaram, nessas sociedades a miséria terrível que conhecemos hoje. Existia o medo da penúria repentina, mas não havia a exclusão de uma parte da sociedade lançada ao desespero. Era gente muito pobre, mas unida. Os mecanismos de solidariedade comuns a todas as sociedades tradicionais desempenhavam plenamente seu papel, como atualmente na África Negra. Os ricos tinham o dever de dar e o cristianismo estimulava esse dever de ajudar os outros.” (obra citada, pág.28).
          Ainda dentro do feudo, outro local de destaque é o castelo e sua fortificação. A torre, elemento mais alto e ao mesmo tempo de maior segurança. A tomada da torre e do castelo simbolizavam a perda do poder do Senhor. Assim, é justamente na defesa deste espaço com a utilização desde bestas e catapultas como elementos modernos de luta até o lançamento de óleo fervendo que observamos os recursos tecnológicos de guerra disponíveis na época. As armaduras, que tinham o valor de verdadeiras fortunas, ainda não gozavam de todo o aparato que estamos acostumados a ver, com elmos trabalhados e muito mais incrementadas (o que só seria possível séculos depois), assim como as armas, basicamente arcos, flechas e espadas, uma vez que ainda estamos séculos distantes da invenção da pólvora.
          O filme está centrado na figura do Senhor da guerra e nenhum ator foi capaz até hoje de melhor representar e literalmente incorporar personagens históricos como Charlton Heston (Moisés, Judah Ben Hur, El Cid apenas para citar alguns). Aqui ele nos apresenta um ser gótico, sombrio e que busca com sua paixão superar ou ao menos controlar seu passado e destino trágico (a morte do pai, vitima dos “bárbaros” frísios). A trama também enaltece suas virtudes de justiça, tendo como contraponto a arrogância e prepotência do irmão. Apesar destas características, não se pretende transformá-lo em herói, algo tão clichê nos filmes recentes hollywoodianos. Respeitam-se aqui os preceitos históricos ao se retratar uma sociedade extremamente hierarquizada e estanque. Assim, o personagem de Heston está em cima de seu altivo cavalo em todas as tomadas em que está em contato com seus servos, dirigindo-se a eles de cima para baixo. Ele não utiliza seu poder como forma de ostentação, mas nunca o transfere a outrem ou deixa de exercê-lo. Em uma cena, refere-se aos camponeses da seguinte forma: “Para mim, são como animais”.
          Outro personagem que merece destaque é o padre do feudo. Aqui há certa liberdade artística (trata-se de um filme de ficção que contextualiza um período histórico) ao representar um personagem um tanto quanto “abestalhado” e bastante hesitante ao longo da trama, características estas que destoam do enorme poder e prestígio que a Igreja católica apresentava no período. O padre nos é mostrado como alguém que tem a difícil tarefa de ser um elemento conciliador de duas culturas, isto é, ao mesmo tempo em que busca agradar ao seu senhor cristão e realizar um processo de catequese junto aos servos pagãos, por outro lado sabe que pela força e imposição não irá obter êxito. A figura do padre é bastante simpática, mas historicamente imprecisa. Sabemos que o poder da igreja não foi fruto do diálogo e diplomacia, mas de completa imposição e subordinação de uma cultura sobre outra, nem que para isso fosse necessário (o que ocorria com frequência) o expediente da violência. Então a representação de um membro do clero bonachão e vacilante talvez seja o principal “furo” histórico do filme.          Mesmo assim, há algumas passagens em que este poder clerical se manifesta, como na cena em que o padre e o irmão do Senhor discutem e este diz: “Eu sou um cavaleiro”, enquanto a resposta do padre qualifica sua posição naquela sociedade iletrada: “E eu sei escrever”. E foi justamente esta escrita que chegou até nós; foi a partir do relato de monges copistas e membros do clero que os historiados puderam, com os devidos filtros, escrever a história medieval.
          Outro historiador, este brasileiro, nos apresenta a estruturação social clássica do período medieval, estrutura esta que é reproduzida com precisão pelo filme:
          “Para que o guerreiro possa defender o religioso e o trabalhador, é necessário que o primeiro interceda junto a Deus pelo sucesso, e que o segundo lhe forneça os meios materiais para tal; para que o religioso possa pedir a proteção divina para a sociedade, é necessário que o guerreiro o defenda, e que o trabalhador o sustente; e para que o trabalhador consiga realizar sua tarefa produtiva, é necessário que o guerreiro o proteja dos perigos terrestres e que o religioso o salve do desagrado divino”. (em Guerra e guerreiros na Idade Média, Cyro Rezende Filho, Editora Contexto, pág.74).
          Embora seja considerado um épico histórico, O Senhor da Guerra desenvolve em sua trama uma história de amor, e para entender o que isto representava neste período mais uma vez temos que recorrer ao que se pensava a este respeito. O conceito de amor como vários outros é uma construção histórica, fruto de uma correlação de pensamentos que expressam sua significação. Assim, somente compreendendo como o amor e a imagem de masculino e feminino eram representados somos capazes de interagir com aquela sociedade e suas particularidades, que ora se aproximam e ora se distanciam de nossos valores e conceitos atuais.
          Na literatura religiosa medieval, os padres destacaram algumas ideias a respeito da mulher. Foram desenvolvidos dois conceitos: de um lado, o da mulher má por natureza e do outro o da mulher perfeita. A história de Adão e Eva foi retomada. Muitos pensadores não acreditavam que Eva, assim como Adão, tivesse sido criada à imagem de Deus. Preferiam considerá-la criação de Adão. Assim sendo, o homem seria dotado da imagem divina, enquanto a mulher apresentaria apenas semelhança divina.
          Uma peça teatral escrita entre 1150 e 1170 nos mostra a forte influência religiosa. Nesta peça, Adão é apresentado como se fosse vassalo de Deus. O Paraíso, nesse sentido, simboliza o feudo. Eva aparece como vassala de Adão e apenas como segunda vassala do Criador.
          Satã tenta iludir Adão sem obter sucesso. Ele permanece fiel a Deus como um vassalo deve manter-se fiel ao Seu Senhor. Satã então seduz Eva. Ao fazê-lo, tentou romper a hierarquia reinante no Paraíso para estabelecer, entre a mulher e o homem, e ao mesmo tempo entre o homem e Deus, a igualdade, isto é, a desordem. Seduzida, Eva levou Adão ao pecado. Deus, como um Senhor Feudal exemplar, expulsou os dois do Paraíso e confiscou o feudo cedido a Adão. Este, magoado e cheio de rancor, culpou a mulher. A confissão da pecadora para o público que assistia à encenação deveria confirmar a inferioridade do sexo feminino. O homem, bom vassalo, conseguiu resistir ao mal. A mulher, a parte débil da natureza humana, ao mesmo tempo seduzida e sedutora, foi a causa da perdição de ambos. Hoje o mito de Adão e Eva tem novas roupagens que procuram interpretar a mulher como sendo criada de uma parte lateral do homem (a costela), logo ela está ao seu lado para acompanha-lo em uma igualdade de direitos e deveres. Mas não era esta a configuração da mulher no mundo medieval. Vejamos outra definição para o sexo feminino:
          “Toda mulher se alegra ao pensar no pecado e ao praticá-lo. Nenhuma é boa, se alguém assim acha. Porque a mulher boa é coisa ruim e quase nada de bom existe nela” (monge do século XII).
          Assim, o desejo, que é obra do diabo, destrói o homem. A mulher, inspiradora do desejo, é por excelência agente do mal, causa do desespero, da morte, da danação eterna do sexo masculino.
          Novamente os historiadores Philippe Aries e Georges Duby nos apresentam a mentalidade dominante a respeito das mulheres no período retratado em O Senhor da Guerra, “A mulher não pode viver sem o homem, deve estar no poder de um homem (...) Por natureza, pela natureza de seu corpo, ela é obrigada ao pudor, ao retiro; deve preservar-se; deve, sobretudo, ser colocada sob o governo dos homens, desde o nascimento até a morte, porque seu corpo é perigoso. Em perigo, e fonte de perigo: por ele, o homem perde sua honra, por ele corre o risco de ser desencaminhado, por essa armadilha tanto mais perigosa quanto esta mais preparada para seduzir (autores citados, em História da Vida Privada, vol. II, pág.518, Cia das Letras).
          A partir das informações acima, façamos um exercício de imaginar qual seria a reação social para um fato inusitado: um senhor feudal, um nobre, requerer o direito senhorial de passar a primeira noite com sua serva (até este fato, algo socialmente aceito), mas recusar devolvê-la ao noivo, querer ele se casar e viver com esta mulher. Tal situação evidentemente não só abalaria esta sociedade como provocaria uma total desestruturação de toda a ordem; seria portanto algo impensável e totalmente inaceitável por todos os grupos sociais (clero, nobreza e servos).
          A relação entre os dois personagens, serva e senhor, são elucidativas para melhor entendermos as noções do que era considerado público e privado nessa sociedade, onde o desejo, que é algo pessoal e intimo, torna-se público.
          Na cena da posse sexual da noiva, o Senhor Feudal não quer, em seu intimo, possuí-la pela força, pela violência, conforme o costume (o que é público), mas sim quer conquistá-la, ser capaz de seduzi-la, pois está apaixonado por ela. Assim, devido à enorme diferença social entre eles, ele é obrigado a usar um expediente que é público (o costume) para poder aproximar-se e concretizar seu desejo que é intimo (privado).
          Esta paixão, entretanto, torna-se recíproca: a camponesa não só aceita o “amor cortês” do Senhor como também é agente ativa nesta relação:
          “Eu também estou enfeitiçada”, respondendo e ao mesmo tempo correspondendo à paixão recebida.
          “Dizem que é uma coisa sagrada conquistar o coração de um homem”.
          Evidentemente que tal situação torna-se explosiva quando temos tantos interesses em jogo. A função e o objetivo do Senhor Feudal vassalo de outro senhor eram manter e estabelecer a paz nas terras do seu Senhor e é justamente a relação amorosa dos protagonistas que faz desmoronar toda uma ordem social pré-estabelecida não pelos homens, mas, pelo que se acreditava,  pelo próprio Deus.
          “(...) quando pela homenagem alguém se tornava vassalus de um sênior, estabelecia-se um pseudo parentesco entre pai e filho. Entre eles devia haver respeito e fidelidade. O vassalo, filho simbólico geralmente mais jovem, precisa de terra e camponeses; o Senhor Feudal, pai simbólico, geralmente mais experiente, precisa de guerreiros. Segundo o bispo Fulbert de Chartres (século XI) entre outras coisas, o vassalo deve ser ‘Honesto para que não prejudique os direitos de justiça do seu Senhor ou outras prerrogativas que interessem à honra a que pode pretender. Útil, para que não cause prejuízo aos bens do seu Senhor.’ (em Hilário Franco Júnior – O Feudalismo, Ed. Brasiliense, pág.45/46). Ou seja, fica evidente pela passagem acima que o Senhor da Guerra não cumpre com seu papel e as consequências são desastrosas para todos.
          Finalizando, este filme deve ser visto e revisto, principalmente por aqueles que gostam da História, não apenas como entretenimento, algo que em nenhum momento o filme deixa de ser, mas o que é melhor, como um instrumento que consegue ao mesmo tempo transmitir toda uma gama de informações sobre um período que aparentemente está muito distante de nós, mas que a partir de um olhar mais atento e apurado interage com nossa maneira de pensar e ver o mundo.

5 comentários:

  1. Marcelo, quanto esmero há nessa resenha! Ela é mais que completa, 101%. Uma aula de história, de cinema, uma mostra de como um filme pode ser muito mais que entretenimento apenas. O ideal seria que todas as resenhas pudessem ser assim: informações não só da produção, em si, mas do contexto - de todos os contextos, como no caso desse filme. Valeu muito a pena ler. Mesmo.

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  2. Muito bom. Vê-se que foi feito por um professor de história eamante de cinema.

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  3. Muito grato pelos comentários, fico muito feliz principalmente levando-se em conta quem fez tal avaliação! Abraços

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  4. Nesta resenha utilizei minha experiência em sala de aula. Trabalhei este filme no Ensino Médio público por volta de 1997. Foi muito bom! Hoje, infelizmente torna-se muito difícil desenvolver tal grau de aprofundamento.

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  5. O Raul já disse tudo, e muito bem dito! Infelizmente, por aqui a cultura é
    algo supérfluo, as pessoas não leem, não assistem a filmes de qualidade. Isso é que d´viver num país governado por analfabetos (ou semi-analfabetos) que ainda por cima se orgulham de serem ignorantes.

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